MÚSICAS

terça-feira, 8 de novembro de 2016

80 & tal




Que eu me lembre, começamos a pegar onda em 86. Eu e meus irmãos, sempre os três juntos.

Donos recentes de um apartamento no Guarujá, viajávamos pra lá quase todo fim de semana com a ideia fixa de virar surfista.

Parecer surfista, pelo menos, já tava bom e pra isso ganhamos do nosso "paitrocinador" as nossas pranchinhas pra entrar de cabeça nessa tribo. Lembro que minha prancha custou 1200, a do Fê 1350 e a do Jú, um belo dum canhão amarelo cheio de colchão, 800 cruzados! Acho que eram mais ou menos esses os preços das pranchas semi-novas compradas na Star Point, em Moema. Se bobear, lembro até do cheiro da parafina (com mel) que compramos naquela tarde.

Pra aprender, ficamos então um dia inteirinho na Praia das Astúrias tentando ficar em pé na prancha. No fim do dia, os três com joelhos sangrando (além de várias outras escoriações pelo corpo), conclui  que era um esporte legal mas parecia um pouco perigoso demais pra gente. Mesmo assim fiquei felizão e empolgado depois de finalmente conseguir ficar em pé numa onda pouco visível pois já tava quase de noite. 
Fui dormir realizado.





O surf tava começando a sair da marginalidade e ganhar holofotes. Nada comparado a hoje, quando temos nele além de tudo, também uma consciência ecológica, aprendendo sobre poluição e meio ambiente, correntezas e segurança no mar. Club sandwich, rock'r'roll, lay back, alley oop, reverse com double grab, nada disso tinha o sentido que tem hoje. Floater era a inovação e Martin Potter nosso ídolo!

Essa vontade de ser surfista me veio pela primeira vez anos antes, em São Vicente, onde passávamos férias com a família dos meus tios. Certo dia pintou um casal amigo deles pra passar a noite por lá pois estavam viajando pelo litoral ou algo assim. O cara trazia sua prancha quando chegou junto com sua namorada e ficou trocando ideia com todos nós durante a noite, zarpando no dia seguinte. Lembro que ele se chamava Fernando e a mina dele era bem gata. Fiquei encantado com o desprendimento deles, chegando numa casa já lotada, com uma prancha a tira colo, pra passar somente uma noite e seguir viagem depois atrás de ondas pelo litoral. Isso me fisgou e ali mentalizei que queria ser assim um dia, ter uma prancha assim e, lógico, ter uma namorada assim.

Fomos aprendendo com o tempo e com os caldos, inúmeros. Mas sempre com muito humor e uma brisa  leve e boa entre nós.

Depois que já sabíamos dropar e seguir parede, foram incontáveis mares bons e ruins nas costas, tartarugas no outside e até água viva entrando no short john. Muita provocação de caiçara, bate-boca e o crowd sempre aumentando já que rolava o boom do surf no Brasil, com a volta do circuito mundial ao país no Hang Loose Pro Contest, em Floripa. Dona Glória vivia dizendo que naquele monte de cabecinhas na água, três eram dela!

Minha prancha, uma triquilha 6"2"com a marca Tuba, embora não tivesse muita flutuação era muito rápida e assobiava(!!), fazendo um zunido inesquecível quando eu dropava ondas maiores. Era legal ouvir esse som que eu não sabia exatamente de onde vinha, mas eu ouvia. Flutuação era o que não faltava na prancha do Jú, que a gente chamava de barco pois era uma Hot Gust bem grossa, com a rabeta toda arrebentada. Já a Op azul do Fê, shape do Paulo Rabello, tinha como característica principal ser uma "casca de ovo", ou seja, qualquer joelhada já deixava um amassão nela e a gente vivia tirando o barato por causa disso.

Fê no mais puro estilo Pedro "Águia" Muller


Não tínhamos compromisso com nada. Em Sampa, durante a semana, era só estudar (naquelas), jogar futebol e montar a nossa rede de vôley na rua pra passar a tarde toda jogando. Rock brasuca nascendo junto com o Rock in Rio acontecendo no RJ. Época também do New Wave e da galera Dark. Ginástica Aeróbica na praia com música do Oingo Boingo. Nossas musas, Márcia Porto, Luma de Oliveira, Magda Cotrofe, Xuxa e Luíza Brunet estampando todas as capas de revistas das bancas. 

Acordávamos muito cedo pra surfar já que não éramos de sair na balada e só pensávamos no mar. Lógico que queríamos ficar bons pra fazer pressão pras minas da colônia de férias do Banespa mas a gente era muito tímido, mané de tudo. Imagina o Verão da Lata rolando e nem beber cerveja a gente bebia...


Douglas, outro brother aposentado...


Era o dia inteiro no mar. Pegávamos tanta onda que ao fechar os olhos, por exemplo no banho depois da praia, automaticamente víamos ondas se formando nos nossos pensamentos! É lôco mas rolava isso com a gente.



Grandes mares

Um dia muito especial e que ficou marcado pra mim foi um 12 de março, talvez de 87 ou 88, quando rolou uma ressaca monstro e, com o Tombo insurfável, todos os surfistas estavam pegando onda nas Astúrias, com a galera entrando pelas pedras da Galhetas. Era um mar clássico, com até 3 metros de onda plus (ouvi neguinho dizer que deu 10 pés). Ficamos só pelo inside já que tava gigantão e não dava pra gente descer as morras sem atropelar alguém. Seria "slalom" puro e não tínhamos toda essa habilidade. A praia já não existia e as ondas estavam quase invadindo o calçadão! Que momento.

Nesses dias de ressaca, outra tarde inesquecível foi no Tombo. Não éramos super habilidosos e cheios de manobras no pé mas já tínhamos a segurança pra enfrentar mar grande e crowd caiçara gritando "ó eu!" na nossa orelha. "Vai fazer castelinho na areia, seus pregos" também ouvíamos bastante mas fazíamos que não era com a gente. Nesse dia, também estavam no mar pegando onda junto com a gente (ou seria o contrário?) vários surfistas profissionais, como Tinguinha, Jojó de Olivença e os irmãos do Tombo, Neno, Amaro e o Paulo do Tombo.
Nunca vou esquecer que o Paulinho jamais ia na primeira onda da série... A gente tava lá sossegadão na calmaria e quando pintava a série todo mundo saía remando senão pra pegar, pelo menos pra não tomar um vagalhão na cabeça. Tinha que estar sempre atento. Em várias dessas séries, lembro do Paulinho, que era campeão brasileiro na época, varar a primeira e a segunda buscando sempre aquela maior, a "rainha" da série. Pegava muito.

Nada supera minha habilidade e cara de pau em criar...manobras em ondas difíceis como essa


Nessa época, costumava me orgulhar de apenas uma vez não ter conseguido varar uma rebentação, em outro dia de ressaca, perto do Monduba, nas Pitangueiras. Devo ter nadado o equivalente ao Canal da Mancha mas não teve jeito de passar e desisti.

Dá uma saudade daqueles tempos e hoje fico aqui pensando se ainda voltaremos a fazer um free surf juntos... Não perco a fé. O surf já foi uma conexão muito grande entre nós e ainda é pra mim. Ele nos conecta profundamente com vários elementos confeccionando uma teia de energia fortíssima! A amizade, a natureza local, o clima, o oceano, suas marés e seus seres...Tá tudo lá. Surf é conexão!



Mas deu vontade mesmo de escrever sobre aqueles dias depois de assistir a série 80 & tal, do Canal Off.


É assistir e viajar no tempo.


Boas ondas!
Sempre.








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